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Os imigrantes brasileiros que salvaram uma cidade da decadência

O portal National Journal, publicou na terça-feira, 2 de junho, a reportagem ‘ The Brazilian Immigrants Who Saved a Dying Mill Town’, sobre Ilma Paixão, diretora geral da Rede Abr. A reportagem que está traduzida abaixo, pode ser lida originariamente em inglês, clicando aqui. Na segunda-feira, 8 de junho, o texto original foi publicada no portal MSN e pode ser lida clicando aqui. A reportagem foi escrita pela jornalista Alexia Fernández Campbell.

Ilma Paixão jamais permitiu que alguém a forçasse a sair de Framingham. Nem mesmo com ameaças, intimidação ou assédio.

Quando ela se mudou, pensou e outros brasileiros sentiram que deveriam vir também.

“Senti que se eu desistisse, outros brasileiros não teriam a coragem de seguir adiante”, disse Ilma, diretora do Langer Broadcasting Group, Rede Abr A Brasileira, um grupo de comunicação, que recentemente expandiu suas transmissões para a grande Boston e Cape Cod, além da região Metrowest.

Ilma Paixão fez parte da primeira onda de imigrantes brasileiros que se estabeleceram na região no início de 1980. Naquela época, menos de 1.000 imigrantes brasileiros viviam em Framingham, de acordo com dados do US Census. Em 2010, cerca de 6,5 mil brasileiros viviam na cidade – cerca de 10% da população da cidade. A área é o coração da comunidade brasileira nos Estados Unidos, com o maior percentual de imigrantes brasileiros no país.

A maioria deles se mudou para a região para encontrar emprego como house cleaners e pintores. Mas como o número de imigrantes brasileiros que se estabeleceram em Framingham cresceu, assim como o desconforto em torno desses recém-chegados.

Paixão chegou em 1984 para trabalhar como cuidadora de um membro idoso de uma família brasileira. Ela deixou Coroaci, MG, sua cidade natal, porque sentiu que não foi levada a sério como assistente de enfermeira. O assédio sexual, especialmente para com mulatas tornou difícil para ela para estabelecer uma carreira, diz.

“Gostaria de ter sido escolhida em cada entrevista de emprego”, afirma em seu escritório na Rede Abr em Framingham. “Eu sabia que tinha potencial para ter uma carreira de sucesso e queria explorar esse potencial”, afirma.

Ilma Paixão diz que sabia que as coisas seriam diferentes nos Estados Unidos quando uma família de sua cidade natal perguntou se ela queria mudar com eles para Framingham e trabalhar como cuidadora de um dos seus parentes doentes, oportunidade que aproveitou.

Poucos brasileiros viviam em Framingham naquela ocasião, mas a cidade, um pólo industrial sempre teve uma história de atrair imigrantes europeus para trabalhar em suas fábricas. Imigrantes italianos e portugueses tinham aberto o caminho para os brasileiros, mas seus descendentes nem sempre abriram seus braços para os imigrantes que viriam depois.

“Eles diziam que os brasileiros deveriam se sentar na parte de trás da igreja”, diz Ilma Paixão, recordando àqueles domingos, quando ela participava em uma igreja católica local.

Em 2004, Ilma Paixão ajudou a fundar a Bramas, que abriu um escritório no centro de Framingham. Na época, muitos empresários brasileiros haviam começado a abrir negócios nas lojas vazias ao redor da Câmara Municipal. Grandes varejistas haviam há muito tempo deixado o centro da cidade, e Framingham tinha perdido milhares de moradores após a fábrica da General Motors fechar em 1989.

A Bramas começou a trabalhar com os imigrantes para ajudar a integrá-los na vida pública e crescer seus negócios. “A cidade estava mudando e não houve comunicação entre a prefeitura e a comunidade brasileira”, afirma. Logo, Ilma e um grupo de empresários brasileiros se tornariam alvo de forte sentimento anti-imigrante na cidade, especificamente os integrantes do Concerned Citizens and Friends of Illegal Immigration Law Enforcement, grupo fundado por dois irmãos de Framingham, que constantemente criticavam a Bramas em seu programa semanal de televisão pública, acusando Ilma Paixão de orquestrar uma invasão brasileira na cidade.

Ela se lembra de receber telefonemas anônimos em casa onde vivia com sua família. A polícia sempre minimizou os incidentes como as atitudes inofensivas de pessoas ignorantes.

“As autoridades não fizeram nada. Eles nos ignoraram”, lembra ela. “Eu estava com medo. Graças a Deus que meus filhos não têm o mesmo sobrenome que o meu”.

Em abril de 2005, alguém quebrou a janela traseira de seu Jeep Cherokee com um pedra atirada quando o carro estava na porta da sua casa. Outra vez, quando chegou em casa encontrou três pássaros mortos em uma corda pendurada em uma árvore em seu quintal da frente e nunca descobriu quem fez isso.

“Naquela época, eu estava mesmo com medo da polícia. E chega ao ponto onde você não sabe em quem confiar”, diz.

A experiência foi tão terrível que Ilma considerou deixar de viver em Framingham. Mas ela não queria deixar à que agora se refere como “minha cidade”. Em vez disso, se concentrou em implantar o pólo virtual da Universidade Católica de Brasília, que iniciava então um programa on-line nos Estados Unidos e completou uma bolsa de estudos no MIT’s Community Innovators Lab.

Nos últimos anos, Ilma Paixão diz que a liderança comunitária da cidade finalmente começou a chegar aos imigrantes brasileiros reconhecendo as contribuições para Framingham. O novo administrador da cidade contratou funcionários que falam português e o Departamento de polícia contratou oficiais que também falam português. A equipe de desenvolvimento econômico do centro da cidade reúne-se com empresários brasileiros para incluí-los em projetos de remodelação.

“É um começo promissor e agora vivemos numa cidade que nos respeita”, diz Ilma Paixão, que já não recebe ameaças.

Foto da capa: Alexia Fernández Campbell

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